Todos os homens são feitos do mesmo barro, mas não no mesmo molde

As palavras contidas nos provérbios, pela grandiosidade que encerram, são difíceis de levar pelo vento. Relembram as simples circunstâncias da vida, e o seu autor, que sempre se desconhece, apenas teve como intenção gravar na “memória” da Humanidade a interpretação das circunstâncias. Este provérbio mexicano enquadra-se neste registo.
Parece um lugar-comum expressar que somos seres únicos, cada um com a sua forma de ser e estar. São muitos os apelos e os recursos – mais implícitos ou explícitos – para tentar criar uma normalização do que devemos ser ou de como devemos agir. Proliferam, a cada dia, treinadores e orientadores com o propósito de tornar a normalização como um resultado desejável e expectável para o bem-estar e equilíbrio. E, neste contexto, os moldes são divulgados como a solução instantânea para a paz e coerência.
Respeito, de forma espontânea e genuína, os treinadores e orientadores, a quem deve ser dado espaço para protagonizarem a sua mestria especializada na oferta de moldes. Em algumas áreas de saber, a possibilidade de termos moldes apoia no processo de estratégia, conceptual e operacional.
Reservo mais prudência aos moldes que são imperativamente apresentados para as áreas que se centram no desenvolvimento pessoal, pela responsabilidade inerente. Neste contexto, cada pessoa deve assumir a responsabilidade pelos moldes que adopta para si mesma e ética nos moldes que deseja e/ou coage para os seus pares.
Poder-se-ia dizer que nascemos iguais, no que respeita ao nosso património corpóreo. Surge a primeira falácia: até nesse campo, nascemos diferentes, e o molde do nosso património corpóreo influencia as expectativas e o curso da nossa existência. Nascemos e vivemos de forma diferente, residindo aí a nossa identidade especial, que nos torna seres únicos.
Os órgãos vitais e o seu funcionamento até podem obedecer a um padrão cientificamente validado e testado, mas serão sempre únicos e nossos, com uma inscrição invisível identificativa, onde as emoções têm um papel nuclear.
Reconhecer, respeitar e cuidar do barro e do molde é uma responsabilidade, antes de mais, individual. Se cada pessoa realizar este pequeno desígnio, será, certamente, mais fácil fazê-lo com os seus pares. E acredito, na minha humilde opinião, que seriam gerados os ingredientes instantâneos para o bem-estar, equilíbrio, paz e coerência.
Sabemos que o processo de socialização tem um papel importante na gestão da comunidade. Leia-se, aqui, “socialização” em sentido amplo, pois ao longo da nossa vida estaremos sempre em modo de permanente socialização. Mesmo em contexto organizacional, no mundo profissional, esta é permanente, com o objectivo de promover a imersão na cultura organizacional para vivências mais alinhadas.
E quem são os mestres e autores da socialização? Todos nós, embora com registos diferenciados: uns pela acção, outros pela acomodação, outros pela demissão. São papéis que escolhemos e aceitamos (in)conscientemente. Reside na nossa natureza a capacidade de sermos autores, acompanhada da responsabilidade de respeitar o eu e os outros. Por vezes, esta capacidade é sublimada e permitimo-nos ser barro que se resigna ao molde.
Recordemos o trabalho do oleiro, uma arte de grande mestria em que das suas mãos saem obras com detalhes de (im)perfeição que as tornam únicas. Diferente cunho terá a produção industrial, com moldes herméticos, que cria exemplares em série e rejeita as obras com imperfeições.
Sem respostas definidas, coloco neste artigo apenas as perguntas que me inquietam:
Qual a importância de insistirmos em moldes?
Quem define os moldes?
Onde reside o livre-arbítrio para declinar e negociar moldes?
O que sucede a quem cria o seu molde em dissonância com o molde estabelecido?
Em vésperas de um novo ano, que se aproxima velozmente, recordemos que somos um barro maravilhoso e que os moldes são apenas um arquétipo.
A pergunta instigadora fica para o final: já escolheu o seu molde para 2019?
✍ Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico. ✓ Revisão de texto realizada por José Ribeiro












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