Onde o patrão dorme, ressonam os criados
- 2 de out. de 2018
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O conteúdo que os provérbios carregam é fascinante. Em modo de ágil comunicação, com poucas palavras, versam sobre as questões da vida social e organizacional com uma leveza que outras abordagens não têm. São cogitações sem autor e sem destinatário, pelo que mais facilmente aceites quando citadas. Este provérbio é o exemplo de uma abordagem pragmática a uma realidade organizacional - a liderança.
A aprendizagem do comportamento é, desde tenra idade, modelada por um processo de imitação que ocorre espontânea e naturalmente e que tem permitido a continuidade das comunidades. Ainda que pouco racionalizemos sobre este processo, o ser humano é uma espécie de esponja que absorve energias, direccionando a sua própria numa configuração de mimetismo ou osmose.
A existência de modelos é indiscutível, e o seu papel e impacto nas Organizações têm uma centralidade muito maior do que o presumível. A curto ou médio prazo, tendemos a adaptar-nos ao contexto e a absorver e replicar práticas veiculadas, legitimadas, amnistiadas ou recompensadas. Num modo de contágio social, algo que à partida seria estranho no tempo e no espaço torna-se realidade.
Esta pequena introdução pretendia apenas conduzir ao foco da questão. A partir do momento em que tomamos conhecimento da centralidade e impacto dos modelos, a adequação ao contexto tende a ser mais vigilante. Quem ocupa posições de liderança, ainda que lhe assista a condição humana de agregar qualidades e áreas de melhoria, necessita de acautelar a sua forma de estar e agir, de modo a agregar energias no mesmo diapasão.
Quanto mais a posição seja de responsabilidade, mais exposição e sujeição ao juízo alheio se geram. Por esse motivo, é mais do que expectável que, tendo a responsabilidade de gerir e conduzir a equipa, esteja bem desperto e evite um sono leve ou profundo, entendendo-se este em sentido figurado. Se o comportamento habitual e permanente é de sonolência e entorpecimento, é mais do que natural que haja um contágio e que outros se dêem à preguiça, ao sono e, em última instância, a ressonar.
São muitos os exemplos de “sono” do líder:
Desinteresse pelas tarefas e pelas pessoas
Demissão e transferência aleatória das responsabilidades
Procrastinação crónica
Falta de iniciativa, autonomia e incentivo ao desafio
Resistência à mudança e à inovação
Cristalização em práticas e processos obsoletos
Pensamento e acção focados no passado e rejeição do futuro
Incapacidade de planeamento próprio e de delegação
Descrença na formação contínua
Rejeição à gestão de talentos
Liderança autocentrada
Pela breve síntese que se apresenta, é facilmente calculada a letargia que se apoderará da equipa em curto prazo. Face à letargia, os comportamentos sucedâneos podem ser de diversa ordem: há quem se acomode, quem replique e quem resista. Para os últimos, a resistência dura o tempo que a sua capacidade anímica e emocional permitir. Talvez por isso alguns colaboradores decidam partir – o sono e a letargia não são, a nível profissional, as suas actividades preferidas.
Termino com uma citação admirável de Saint-Exupéry: “Os contos de fadas são assim; Uma manhã, a gente acorda; E diz: "era só um conto de fadas (...)".
✍ Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico. ✓ Revisão de texto realizada por José Ribeiro












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