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O machado esquece; a árvore recorda

  • 4 de set. de 2018
  • 2 min de leitura

A mensagem que este provérbio carrega é poderosa. Poderia ser gravada em vários locais de passagem para que fosse recordada com mais frequência, numa tentativa singela de que houvesse mais zelo no relacionamento interpessoal.

Aborda uma capacidade humana fabulosa – a memória. Embora em algumas circunstâncias considerássemos útil a eliminação de conteúdo deste “arquivo”, o nosso equilíbrio não estará no eliminar, mas sim em gerir e organizar. Mais do que puramente arrumar.

Hoje, o meu artigo é dedicado a reflectir sobre as consequências de negligenciar a memória, insistindo-se em praticar acções que, do ponto de vista da relação, são desonestas, perversas, maldosas e que melindram os pares. Já havia escrito aqui que me preocupa que prospere uma ingénua percepção de considerar que as palavras e as atitudes são passageiras e que não têm efeitos no futuro. Tudo tem uma consequência, e comportamento gera comportamento sempre.

Nos meios em que nos movimentamos, somos movidos por um quadro de referência de valores, desenvolvemos relações com base nas nossas preferências e intolerâncias. No nosso bulício quotidiano, expressamos as nossas competências sócio-relacionais e protagonizamos diferentes estilos de comunicação sem que se tenha, a maior parte das vezes, a consciência de estar a gerar modelos regulados de acção e, acima de tudo, memórias em nós e nos outros. Uma grande parte das vezes, materializamos simbolicamente a função de “machado”, provocando emoções menos positivas, que serão categorizadas e arquivadas. Muita desta informação guardada cria mal-estar e desconforto e, nalgumas circunstâncias, interfere em contextos futuros. Quantas vezes deixamos de fazer algumas coisas que desejamos apenas porque temos a memória de uma "machadada"?

Na vida e nas Organizações existem muitas configurações do “machado”, protagonizadas por pessoas. Partilho algumas:

  • Desconsiderar o outro pela sua experiência e opções de vida

  • Opinar sobre matérias diversas com base em preconceitos, estereótipos e juízos de valor

  • Ostracizar e/ou pressionar para que haja lugar a cedências

  • Encenar situações que escapam à verdade dos factos

  • Ofender de forma directa e/ou simbólica

Muitos “machados” consideram que tudo passa e que as suas acções depressa serão esquecidas. Pensam que "do mal, o menos” e alvitram que o poder lhes permite exercer este papel de autoridade moral e reguladora, numa posição de conforto. Lamentavelmente, em alguns momentos, é o próprio sistema que forma “machados”, acreditando na sua missão de disciplinar as “árvores”.

Mais do que crenças ou ilusões, preocupa-me que não seja ainda generalizada a consciência de que os seres humanos estão ligados entre si e que o amanhã depende sempre do que for executado hoje. Se desejamos promover harmonia e equilíbrio, subjaz a cada um de nós a opção de criar memórias positivas nas pessoas que nos rodeiam. Em suma, menos “machados”.

É tão simples ser pessoa. É tudo apenas uma questão de escolhas e de atitude.

Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo AO Revisão de texto realizada por José Ribeiro

 
 
 

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