Quem semeia ventos, colhe tempestades
- 23 de jul. de 2018
- 2 min de leitura

Os provérbios são um património de conhecimento em sentido figurado e simbólico. A cada dia que passa é crescente o meu fascínio pela sua análise em paralelo com as vivências. Pronunciam-se sobre tudo com uma profundidade carregada de simplicidade óbvia, como se aparentemente estivessem a falar apenas de práticas agrícolas.
Parece intuitivo que a atitude e o comportamento que cada pessoa escolhe adoptar no seu quotidiano relacional, seja a nível pessoal ou profissional, são determinantes para os resultados que se esperam alcançar. Mas nem sempre é assim tão óbvio e no ritmo vertiginoso (in)consciente do quotidiano continuam a proliferar acções que separam em detrimento de unir.
Quem semeia ventos, leia-se aqui em sentido metafórico, estará profundamente direcionado para um registo de conflito, sem qualquer foco em analisar a situação no seu todo, desconsiderando na essência o outro na relação, acreditando devotamente que as pessoas são desprovidas de memória.
Os ventos que se semeiam são, por vezes, a gestão espontânea de sintomas de um mundo interior pouco conhecido ou sublimado, associado a um desconhecimento e descontrole emocional. Continua a ser, infelizmente, o predicado de uma sociedade insensata, o argumento de que “o ataque é a melhor defesa”, sem questionar dos custos elevados para a relação.
A nível organizacional, a autoria da sementeira de ventos pode surgir de vários níveis hierárquicos e com fundamentação diversa. Por muito sustentados que os motivos sejam, recorrendo muitas vezes a fundamentação teórica distorcida e descontextualizada, revelam-se como más práticas, que evidenciam uma cultura organizacional doente ou alienada.
Quando falamos de sementeiras, falamos de pessoas. E pela sua própria natureza, as pessoas percepcionam, sentem, analisam e reagem. E para complementar este processo têm memória, arquivam informação categorizada por marcadores emocionais.
As escolhas organizacionais que se plasmam nas vivências podem ser diferentes. Contudo, serão sempre uma escolha que está timbrada com responsabilidade, mesmo que se atribua este ónus a causalidades externas.
Se a escolha organizacional for semear o registo de desconfiança, falta de autonomia, falta de reconhecimento, desconforto na relação, superioridade e ascendência sobre os outros, desorganização, aleatoriedade de decisões e acções, diferenciação fortuita de tratamento em situações idênticas, que resultados se esperam?
É tudo tão simples, provavelmente a dificuldade reside em ser tão simples. E por ser tão simples, as pessoas entendem complexificar.
A cultura organizacional é feita de pessoas, para pessoas e com pessoas. E as pessoas têm um com comportamento multi-dinâmico, são diferentes entre si com uma característica que as torna únicas – emoções.
Se desejamos gerar boas emoções, no sentido de promover boas colheitas na melhoria da comunicação, relação e desempenho, temos que apostar nas boas sementeiras. E neste processo somos todos responsáveis, porque todos andamos pelo campo diariamente a lançar sementes.
Em suma, é tudo apenas uma questão de escolhas.
Lisboa, 16 de Julho de 2018
✍ Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.












Comentários