Quem cala consente
- 8 de jan. de 2018
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Apresenta-se um provérbio inteiramente erróneo. Arriscaria dizer que a sua verbalização possa gerar a ampliação de um “silêncio” ensurdecedor que traduz emoções menos positivas.
Na minha modesta opinião, quem consente deve ter a responsabilidade – uma fórmula híbrida de direito e dever – de expressar esse consentimento por palavras, que se esperam congruentes com a comunicação não verbal. Sublinhei, propositadamente, comunicação não verbal, considerando que todos já experienciamos situações concretas em que se afirma concordância pelas palavras, e paradoxalmente a linguagem do corpo expressa, literalmente, o contrário.
Acredito que este provérbio é anterior ao trabalho teórico que conclui da existência de quatro estilos de comunicação. Creio que nessa altura fossem predominantes – e diria, desejadas - pessoas com um estilo de comunicação passivo. Talvez este provérbio pretendesse fundamentar e legitimar uma ordem natural das coisas na qual a face dominante determinava a acção, simultaneamente cerceava a possibilidade da outra parte expressar a sua discordância, pois rapidamente a sujeitava a uma regulação e/ou eliminação.
No meu juízo, esta forma de fundamentar e/ou legitimar, foi um manancial rico para a gestação de conflitos latentes que são, inevitavelmente, corrosivos e promotores de um distanciamento relacional. Digo, frequentemente, que prefiro os conflitos manifestos aos latentes. Nos conflitos manifestos está presente a consciência da sua existência, identifica-se a origem e protagonistas e, pela sua desocultação, abre-se a possibilidade de trabalhar na sua resolução. Quando, pelo contrário, estamos face a conflitos latentes, a consciência pode ser inexistente ou residual, mas com uma repercussão (in)consciente nas acções e comportamentos.
Onde reside a garantia de que o silêncio é, de facto, uma concordância face ao contexto e decisão tomada? Poderá ser uma forma de desactivar um conflito, isto é, uma etapa de “dar tréguas” por uma análise estratégica da situação, com a consciência de que em breve se voltará à tentativa de resolução. Mas poderá, também, ser um silêncio que oculta um conflito latente, passível de estar emocionalmente a corroer e a determinar o comportamento.
A competência comunicacional é das mais fascinantes ferramentas de que dispomos para gerir semelhanças e diferenças. Negar e limitar esta competência é, no mínimo, uma atitude relacional que se funda na autocracia.
Em suma, não é a “falar que a gente se entende”? Nesse sentido, quem engenhou o “quem cala consente”? Sem querer ser tendenciosa, alvitro:
alguém que tem pouco tempo para ouvir e assim agilizou a questão;
alguém que, no seu imaginário, tencionou criar uma falsa aceitação do outro;
alguém que desejava a todo o custo legitimar a sua consciente falta de razão acompanhada da sua possibilidade de exercer o poder.
Nenhuma das três possibilidades me parece trazer valor acrescentado para o crescimento e relacionamento intra e inter-pessoal.
Quem consente, fala. Quem consente, comunica e tem regozijo nesse comportamento. Quem recebe esse feedback de consentimento, também comunica e tem regozijo no processo.
Assim sendo, promova-se e incentive-se competência comunicacional.
Sandra Dias
Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.












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