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A culpa morreu solteira

  • 3 de abr. de 2018
  • 3 min de leitura

Os provérbios traduzem, por vezes, uma ironia mordaz. Na minha opinião, este é um deles. Além da ironia, parece traduzir uma acomodação a uma realidade que nos incomoda, mas que a dada altura se torna adaptativa, no sentido de transformar um logro numa verdade socialmente aceitável.


Não gosto pessoalmente da palavra culpa, pois tem uma carga negativa, associada a uma transgressão, passível de ser ultrapassada por uma penitência, muito associada aos reforços negativos. Salienta-se, também, que a culpa é uma das emoções secundárias, referidas na excelente abordagem que António Damásio tem desenvolvido no âmbito do seu trabalho científico.


E porque somos seres emocionais, com uma memória cumulativa, a culpa é uma emoção que desejamos afastar das nossas vidas, mas que está presente nas nossas vidas, nomeadamente, porque vivemos num mundo com pares que nos investem, consciente ou inconscientemente, culpas.

Na vida mundana, a culpa é o que é. Nas Organizações a culpa deveria ser substituída diariamente pelo conceito de responsabilidade, que se centra no assumir de compromissos formalmente investidos, sobre os quais somos agentes e fiadores dos resultados.

Há dias falávamos, entre profissionais, sobre o que nos fazia ficar fora de controle em equipa. Curiosamente, uma das situações profusamente citada residia no “não assumir responsabilidades”, com o consequente processo de, na maior parte dos contextos, esta demanda “morrer” e/ou lamentavelmente, ser delegada a um elo mais fraco.


A responsabilização é um dos factores de força nas equipas e nas Organizações, considerando que uma equipa se constrói pelos laços da confiança, sentido de pertença e responsabilidade. Aliás, não ter responsabilidades a nível funcional é um esvaziamento do profissional, que é, lamentavelmente, utlizado em meio organizacional quando se optam por estratégias de mobbing.


Em meio organizacional, trabalhamos diariamente com responsabilidade em detrimento da culpa. A responsabilidade pressupõe que o profissional assuma um conjunto de tarefas de uma área funcional, ancoradas nas suas competências técnicas e sócio-relacionais, que lhe permitem desenvolver processos diferenciados e complexos com vista à obtenção de resultados. No domínio da responsabilidade lidamos com contextos que são estrategicamente planeados e, como tal, passíveis de serem analisados com base em indicadores qualitativos e quantitativos. No domínio da responsabilidade centramo-nos nas evidências e procuramos soluções em detrimento de culpados. Nas Organizações e embora estejamos diariamente a lidar com pessoas os processos de feedback – quer positivo, quer correctivo – centram-se no profissional e não na pessoa. E esse profissional assume e responde pelas responsabilidades assumidas.


E porque continua a morrer a "responsabilidade solteira” nas Organizações? São inúmeros os motivos, mas destacam-se os mais agudizados que carecem de análise e transformação:

  • Inexistente e/ou residual organização interna de definição de responsabilidades, com argumentos de polivalência, que criam todos os dias “áreas cinzentas”

  • Falta de comunicação interna

  • Desadequados estilos de liderança

  • Desvalorização do acompanhamento e supervisão

  • Ausência e/ou parco investimento no desenvolvimento de competências técnicas

  • Desvalorização do investimento nas competências sócio-relacionais

  • Profusão de repreensões em público, com recurso a feedbacks ofensivos

  • Desadequados estilos de comunicação, recompensados pela liderança

Se o desejo da Organização é agregar valor, crescer e promover uma cultura organizacional de responsabilidade salutar, em primeiro lugar urge assumir que a responsabilidade existe e que deve ser encarada como um alicerce. No restante o investimento diário é de todos, com um especial enfoque em quem assume a liderança. Se quem a assume se demite da responsabilidade das suas funções está claramente a transmitir uma mensagem incoerente.


Hoje fui responsável pelo que escrevi neste artigo e assumo as consequências, sejam elas positivas e/ou negativas. Afinal é com os erros que aprendemos. Só não erra quem nada faz. Importante é aprender com os erros, analisar, analisar e analisar e investir nas soluções. Repetir o erro é que passou a ser uma opção.


Em suma, é tudo apenas uma questão de atitude.


Sandra Dias

Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.

 
 
 

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