O saber não ocupa lugar
- 14 de fev. de 2018
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Há momentos em que gostaríamos de debater in loco com o criador o âmbito do seu produto. Este provérbio é uma destas situações.
A que lugar alude? Ao lugar interior em que cada pessoa organiza o saber, de forma a torná-lo significativo e concretizável em acções? À premissa que todo o conhecimento é passível de acrescentar valor, independentemente da necessidade e/ou aplicabilidade imediata? Ou alude ao lugar onde o saber tem legitimidade para ser reconhecido e partilhado?
Sem querer ter a veleidade de pensar pelo criador, gostaria que aludisse aos três lugares e todos os outros que possam ser equacionados.
Sou, por formação pessoal e académica, uma entusiasta pelo saber independentemente do espaço onde se materializa, do formato em que se apresenta e do protagonista que o representa. Diz-nos a História que é redutor considerar apenas como legítimo o saber que se apresenta certificável por uma estrutura formal e reconhecida para o efeito. Além da reflexão sobre o poder instrumental deste registo como “ferramenta” perniciosa do poder dominante para validar a reprodução social.
No passado, o saber estava fechado em lugares apenas acessíveis a uma elite. A organização social vigente mantinha e blindava este acesso, com a clara convicção que o saber permitia a aproximação a uma capacidade crítica e operacional, naturalmente incómoda, de questionar o status-quo. E neste âmbito, todo o saber experiencial foi, durante muito tempo, ostracizado.
É com algum desencanto que assisto, assiduamente, a uma revisitação deste paradigma obsoleto e bacoco. Nalguns palcos permanece um conceito encouraçado de que o saber válido apenas tem lugar no institucionalmente desenhado, expressando que o saber é filho único da educação formal. Todos os restantes saberes são filhos bastardos e, como tal, não perfilhados.
Este paradigma arcaico é a antítese da nossa capacidade de aprendizagem ao longo da vida, em múltiplos espaços e tempos. E é a negação de que podemos absorver saber avulso que poderá, ou não, ser útil numa fase posterior da vida.
O saber não ocupa lugar. É um produto humano em permanente desenvolvimento, imune a uma calendarização ou alocação física em instalações fixas e certificadas. É um valor passível de ser partilhado, transformado, significado à realidade individual, guardado ou convertido em realizações. Com especial importância para o facto de ser, com direito legítimo, reconhecido e validado.
Recordemos Paulo Freire: “O homem, como um ser histórico, inserido num permanente movimento de procura, faz e refaz o seu saber”. Sem que haja, naturalmente, lugar e tempo específico para tal.
Sandra Dias
Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.












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