A vantagem de valorizar o património experiencial na senda do conhecimento
- 9 de ago. de 2017
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Não é de forma aleatória que destaco no título a palavra vantagem. Peço indulgência à minha posição, mas não consigo – talvez por força da minha experiência – defender que valorizar as experiências adquiridas ao longo da vida seja uma desvantagem.
Nem sempre foi assim. Durante muitos anos estivemos, lamentavelmente, reféns de um paradigma que apenas considerava as aprendizagens realizadas em contexto formal, e por inerência certificadas através de um documento, como válidas e reconhecidas. Tal paradigma gerou muitas desigualdades sócio-económicas e estratificou o saber. De um lado teríamos os letrados e do outro lado os não letrados.
Felizmente que outros paradigmas emergiram que nos permitem hoje ter uma postura e acção completamente diferentes. Embora ainda existam tentativas de ocultar – por vezes praticadas pelas politicas sócio-educacionais – a vantagem de reconhecer a experiência ao longo da vida, há um conjunto generoso de pessoas que defendem a sua importância.
Eu própria não cresci a pensar assim. Tive o grato privilégio de conhecer pessoas que me ajudaram a pensar sobre esta matéria e a tirar as minhas próprias conclusões. Tive o aprazível privilégio de conhecer e trabalhar com pessoas que apenas fizeram breves incursões pela Escola, mas que detinham um património de experiência e conhecimento que faria corar um letrado de alta estirpe.
Porque terá um adulto com experiência de 20 anos numa determinada área, ser privado do reconhecimento da sua experiência apenas porque não tem um certificado que o ateste? Porque se desvalorizaria uma experiência de 20 anos apenas porque o conhecimento e competência foi adquirida em contexto de trabalho e não nas cadeiras de uma Escola?
É evidente a importância de reconhecer as aprendizagens e experiências adquiridas ao longo da vida, simultaneamente, para os processos de valorização pessoal e de crescimento sócio-económico. A existência dos processos de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC) ancora-se nesta evidente importância.
Tenho o privilégio de trabalhar nesta área há já alguns anos e é admirável poder partilhar conhecimentos, aprender novas formas de chegar aos mesmos resultados, ouvir as pessoas surpreenderem-se consigo mesmas “sei fazer isto tudo? Aprendi tudo isto sem reflectir que o estava a aprender! Formei x novos colaboradores sem me aperceber porque outros também o fizeram comigo”.
Reconhecer e creditar experiências é um recurso valioso para a história individual e social. Termino com Paulo Freire, autor que me inspirou e continua a fazê-lo: “Não há saber mais, nem saber menos, há saberes diferentes”.
Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico












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