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Nem tudo que reluz é ouro

  • 11 de jun. de 2018
  • 2 min de leitura

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Quem já leu o Principezinho, de Saint-Exupéry, deve ter retido na sua memória que “o essencial é invisível aos olhos”. O provérbio em apreço relembra, de forma objectiva, essa frase simbólica.

Num contexto social e organizacional em que a imagem, absorvida através da visão, parece ser a única fonte de percepção, é útil estimular outras formas de ir mais além. Porque de facto, os olhos são dominados por uma percepção selectiva, que pode trair as restantes formas de inteligibilidade.

O processo de conhecimento dos nossos semelhantes, com o objectivo de estabelecer relações interpessoais estáveis e sanas, depende, antes de mais, de um apurado conhecimento do nosso EU. O auto-conhecimento é o processo e património mais valioso que podemos conquistar.

Porém hoje, escrevo essencialmente sobre o percepção gerada sobre os outros. A arriscada análise rápida que se pode criar sobre alguém pode, em momentos e contextos específicos, gerar situações futuras de desconforto e desapontamento, quando se conclui que alguém nos parecia uma pessoa que é, afinal, apenas uma personagem. Todos desempenhamos papéis em várias circunstâncias e contextos, mas existem decerto pessoas que protagonizam um guião pré-determinado, em função dos seus objectivos e da liberdade que lhes é concedida para essa personagem.

Sem culpas ou remorsos, uma abordagem da qual me distancio, algum "metal não precioso" apenas adquire estatuto de ouro, porque existe algum encaminhamento e/ou concessão de oportunidade para tal. Muitas vezes pelo encantamento, pela ilusão das aparências e pelo silêncio, essa honra é concedida com os efeitos inerentes a essa escolha.

Conhecer e reconhecer uma pessoa pelas suas características genuínas implica tempo de qualidade e diferenciadas circunstâncias que definam uma postura de regularidade. Implica mais do que usar os olhos, sendo essencial uma permanente escuta activa para absorver a coerência (ou a sua falta). Implica ir além de uma simplista análise de palavras e de invólucros, criando uma distância de segurança do "fast mode".

Tudo o que se aparta da autenticidade tem, à partida, pouca permanência no tempo. Mas enquanto perdura o encantamento, os comportamentos cristalizam-se e os seus efeitos, regra geral, também. E criam-se verdades, em estilo de dogma, que se dilatam no tempo e nas relações.

A verdadeira luz e brilho vêm de dentro, são projectadas pelo olhar reluzente. Vivem-se e sentem-se. Não são nem um cenário nem um holograma, são genuinamente a vida em movimento.

Tudo o que reluz terá a sua fonte de energia. Há apenas que destrinçar a sua origem e a sua intenção. Em suma, é tudo apenas uma questão de ver para além do óbvio.


Sandra Dias


Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.


 
 
 

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