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Todos os homens são feitos do mesmo barro, mas não no mesmo molde

  • 12 de dez. de 2018
  • 3 min de leitura

As palavras contidas nos provérbios, pela grandiosidade que encerram, são difíceis de levar pelo vento. Relembram as simples circunstâncias da vida, e o seu autor, que sempre se desconhece, apenas teve como intenção gravar na “memória” da Humanidade a interpretação das circunstâncias. Este provérbio mexicano enquadra-se neste registo.

Parece um lugar-comum expressar que somos seres únicos, cada um com a sua forma de ser e estar. São muitos os apelos e os recursos – mais implícitos ou explícitos – para tentar criar uma normalização do que devemos ser ou de como devemos agir. Proliferam, a cada dia, treinadores e orientadores com o propósito de tornar a normalização como um resultado desejável e expectável para o bem-estar e equilíbrio. E, neste contexto, os moldes são divulgados como a solução instantânea para a paz e coerência.

Respeito, de forma espontânea e genuína, os treinadores e orientadores, a quem deve ser dado espaço para protagonizarem a sua mestria especializada na oferta de moldes. Em algumas áreas de saber, a possibilidade de termos moldes apoia no processo de estratégia, conceptual e operacional.

Reservo mais prudência aos moldes que são imperativamente apresentados para as áreas que se centram no desenvolvimento pessoal, pela responsabilidade inerente. Neste contexto, cada pessoa deve assumir a responsabilidade pelos moldes que adopta para si mesma e ética nos moldes que deseja e/ou coage para os seus pares.

Poder-se-ia dizer que nascemos iguais, no que respeita ao nosso património corpóreo. Surge a primeira falácia: até nesse campo, nascemos diferentes, e o molde do nosso património corpóreo influencia as expectativas e o curso da nossa existência. Nascemos e vivemos de forma diferente, residindo aí a nossa identidade especial, que nos torna seres únicos.

Os órgãos vitais e o seu funcionamento até podem obedecer a um padrão cientificamente validado e testado, mas serão sempre únicos e nossos, com uma inscrição invisível identificativa, onde as emoções têm um papel nuclear.

Reconhecer, respeitar e cuidar do barro e do molde é uma responsabilidade, antes de mais, individual. Se cada pessoa realizar este pequeno desígnio, será, certamente, mais fácil fazê-lo com os seus pares. E acredito, na minha humilde opinião, que seriam gerados os ingredientes instantâneos para o bem-estar, equilíbrio, paz e coerência.

Sabemos que o processo de socialização tem um papel importante na gestão da comunidade. Leia-se, aqui, “socialização” em sentido amplo, pois ao longo da nossa vida estaremos sempre em modo de permanente socialização. Mesmo em contexto organizacional, no mundo profissional, esta é permanente, com o objectivo de promover a imersão na cultura organizacional para vivências mais alinhadas.

E quem são os mestres e autores da socialização? Todos nós, embora com registos diferenciados: uns pela acção, outros pela acomodação, outros pela demissão. São papéis que escolhemos e aceitamos (in)conscientemente. Reside na nossa natureza a capacidade de sermos autores, acompanhada da responsabilidade de respeitar o eu e os outros. Por vezes, esta capacidade é sublimada e permitimo-nos ser barro que se resigna ao molde.

Recordemos o trabalho do oleiro, uma arte de grande mestria em que das suas mãos saem obras com detalhes de (im)perfeição que as tornam únicas. Diferente cunho terá a produção industrial, com moldes herméticos, que cria exemplares em série e rejeita as obras com imperfeições.

Sem respostas definidas, coloco neste artigo apenas as perguntas que me inquietam:

  • Qual a importância de insistirmos em moldes?

  • Quem define os moldes?

  • Onde reside o livre-arbítrio para declinar e negociar moldes?

  • O que sucede a quem cria o seu molde em dissonância com o molde estabelecido?

Em vésperas de um novo ano, que se aproxima velozmente, recordemos que somos um barro maravilhoso e que os moldes são apenas um arquétipo.

A pergunta instigadora fica para o final: já escolheu o seu molde para 2019?

Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico. Revisão de texto realizada por José Ribeiro

 
 
 

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