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Aquele que vai buscar a água é aquele que corre o maior risco de partir o pote

  • 4 de jun. de 2018
  • 3 min de leitura

O mundo inesgotável dos provérbios é um manancial de inspiração de enquadramento dos acontecimentos da vida quotidiana. De facto, é salutar de quando em vez desactivar o modo piloto automático e analisar as situações pela sua circunstância e contexto. Este provérbio oriundo do Gana faz, de forma admirável, essa função.

A acção, essa competência fascinante que assiste aos seres pensantes e conscientes, tem, simultaneamente, um carácter de coragem e de risco. Fazer algo é assumir uma responsabilidade, pelo processo e pelos resultados. Mas é acima de tudo pôr em marcha uma atitude de iniciativa, por oposição à postura inerte e amorfa.

Nas Organizações, onde se vive de acções e resultados, a iniciativa de fazer acontecer é uma das mais valorativas, que deveria ser estimulada e reconhecida por quem coordena e lidera as equipas. Contudo, existem momentos em que evidenciar e protagonizar iniciativa pode ser um factor de dano na dimensão da motivação e satisfação. Existem momentos singulares (e diria inexplicáveis) em que a pro-actividade e autonomia são acompanhadas de um desadequado processo de feedback, condicionando, assim, as futuras actividades de iniciativa e pró-actividade.

É celebre a expressão “só não erra quem nada faz”. Sendo o erro uma possibilidade de poder agir no sentido da melhoria contínua, assume-se o mesmo como uma oportunidade. Porém, o risco de arriscar pela possibilidade de errar conduz, não raras vezes, à inércia.

Naturalmente quem vai mais vezes à água com o pote, incorre numa possibilidade directamente proporcional de ver o pote quebrado. Por várias e inúmeras razões, em sentido real e/ou figurado:

  • O caminho é novo e o portador do pote está a lidar com a novidade;

  • O caminho é conhecido, mas muito tortuoso e cheio de manigâncias;

  • No caminho há alguém que teima em interromper e, consequentemente desfocar a atenção do portador do pote;

  • O pote é velho e o portador tem vergonha e/ou culpa de o dizer;

  • Alguém delega que o portador carregue o pote e mais “volumes”.

Porém quando o pote se quebra, as razões mencionadas são completamente secundarizadas e o único foco é encontrar o culpado que teve a ideia de o carregar, salientando-se o erro em detrimento da aprendizagem obtida. Como se pode calcular, esta postura condicionará de forma impactante as próximas acções do visado e dos seus pares. Face a uma próxima necessidade de executar tarefa idêntica, sob idênticas circunstâncias, as memórias individuais e coletivas serão activadas com uma forte possibilidade de prevalecer o medo em vez do impulso motivacional positivo.

Talvez, face a este contexto, se perceba porque existe pouca iniciativa ou pró-actividade. Porque de facto quem se expõe, avança e toma iniciativa, também se arrisca a todas as consequências. E por vezes, estar num lugar em modo quedo é a melhor forma de regular as emoções e as expectativas.

Cada um fará as suas escolhas, sabendo que em cada comportamento há um resultado. Importante é o processo de consciência de que todos os processos que se ancoram na progressão e acção têm desafios. E padecer por falta de água com receio do que possa surgir poderá, em algumas circunstâncias, ser o fim da linha.

E termino citando Antoine de Saint-Exupéry “Não há uma fatalidade exterior. Mas existe uma fatalidade interior: há sempre um minuto em que nos descobrimos vulneráveis; então, os erros atraem-nos como uma vertigem.

Sandra Dias

Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.

 
 
 

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