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Quem corre com medo não pergunta por caminho

  • 26 de abr. de 2018
  • 3 min de leitura

Existe nos provérbios um saber vivencial tão útil como as cartas e a bússola que orientam os aficionados da orientação. Os mais modernos inclinam-se para o GPS. Independentemente dos recursos, regista-se que são formas de guia, tal como os provérbios nos podem guiar num melhor entendimento do comportamento humano.


Este provérbio fala do medo e do efeito que este pode ter na capacidade de análise, decisão e acção face a determinada circunstância ou contexto.


Quando falamos em medo (por vezes só o acto de pensar na palavra gera uma peculiar reacção interna), podemos vivenciar um quadro emocional ambivalente. Existe o medo paralisante e o medo energizante. O primeiro bloqueia a nossa acção, levando-nos a desacreditar da nossa capacidade de fazer face a acontecimentos que desafiam a nossa existência. Face ao medo paralisante, parece que apenas as nossas funções vitais se registam, que todo o nosso corpo fica hirto e que a capacidade de pensar e mover são desactivadas. E o medo paralisante retroalimenta-se do medo, porque a nossa percepção e interpretação do agudizar da situação influencia o estado emocional e a própria homeostasia. O medo energizante (palavra minha) pode, também, estar carregado de dissonância emocional com uma resposta metabólica associada dissonante. O medo paralisante impede a capacidade de agir (por fuga ou enfrentamento) e o energizante pode, em certa altura, predispor apenas para fugir. E quem foge, sabemos, deixa tudo para trás, não olhando atentamente para o caminho que tem pela frente.


Embora a pirâmide de Maslow, que aborda a motivação, tenha sido aperfeiçoada com outros modelos e abordagens, nalguns pontos continua a ser uma referência. E recordemos que a necessidade de segurança está no 2.º patamar da pirâmide. Ou seja, perante uma situação desafiante, o nosso instinto – porque os temos – impele-nos a rapidamente estabelecermos a ordem natural das coisas.

Vejamos a imagem clarividente de estar face a um animal feroz. Podemos “congelar” ou correr desmedidamente sem olhar em que direcção (apenas uma que seja o mais longe dali). E nessa fuga alucinada podemos, a dada altura, tropeçar e/ou cair num terreno agreste. Iremos nessa fuga sôfrega parar e perguntar a alguém que passa para onde podemos correr para restabelecer a segurança? Ou se alguém quiser ajudar e indicar o caminho de segurança ouviremos a sua voz?


Esta breve introdução, sobre o que somos e como agimos face ao medo, tem uma especial importância quando o objectivo é abordar a cultura do medo em meio organizacional, nomeadamente no que se refere à gestão de equipas (que prefiro chamar gestão de pessoas). Quando uma equipa é liderada por meio do medo, obrigando-a a correr (cumprir metas e objectivos), segundo este padrão qual o resultado que se espera obter? Nesta correria frenética, haverá pouca disposição e oportunidade individual para partilhar inputs, fazer questões, esclarecer dúvidas, equacionar acções de melhoria. Porque o que verdadeiramente importa é atingir o resultado, mesmo que do processo se tenha reservas.


Gerir equipas com o ingrediente do medo (diferente de promover o desafio e a adrenalina) é um passo de bebé para criar passos de gigante em que o atropelo entre pessoas, relações, tarefas e objectivos vai comprometer directamente o resultado final.


Se a aspiração é gerir para gerar resultados, o segredo reside na forma como se lidera. Porque em gestão “pura e dura” falamos de resultados, e em liderança falamos de pessoas que geram resultados. E gerir pelo medo é uma areia movediça em que todos vão querer sair sem exactamente perceber que caminho vão trilhar. Deseja-se um grupo de pessoas que se atropelam umas às outras ou pessoas que de forma colaborativa trabalham em equipa? São perguntas que cada líder deve fazer diariamente no exercício da sua liderança.


No meu percurso profissional, já ouvi muitos argumentos que pretendem legitimar o medo para obter bons resultados e manter equipas “no ponto”. Nenhum dos argumentos me convenceu até hoje, pois negam a essência do trabalho em equipa e da gestão emocional que está associada a cada pessoa.


Noutros idos tempos, comandava-se pelo medo. Olhemos para trás e concluamos quantos conflitos manifestos e latentes foram gerados. Conclua-se que perdemos muito e, nalgumas circunstâncias, quebrou-se, para sempre, a confiança.


Desejamos que equipas? E que corrida desejamos para e nas equipas? As perguntas estão feitas. As respostas dependem de nós.


Em suma, é tudo apenas uma questão de opção.


Sandra Dias

Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.

 
 
 

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