Desapegar e destralhar
- 27 de dez. de 2017
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Chegámos à última semana do ano no rescaldo da azáfama do Natal. E estamos em vésperas de partir para um novo ano civil. É um tradicional momento para fazer esquissos de novos planos. Já havia escrito em anterior artigo sobre este processo, que na minha opinião, está mais carregado de simbolismo do que de efectiva realidade.
Parece ser mais coerente e produtivo que, antes de sermos absorvidos por Kits de objectivos e planners, pudesse ser feita previamente uma “limpeza” de tudo que está a ocupar o espaço vital, mas que não se traduz, necessariamente, em bem-estar ou felicidade.
Ao longo da vida, como seres de memórias e emoções, vamos arquivando e guardando uma panóplia de “bens” (materiais, físicos e simbólicos) que nos fazem evocar e/ou localizar essas mesmas memórias e emoções. E nunca parece ser a hora de nos desfazermos desses “bens”, como se apenas através deles fôssemos capazes de reter recordações. E inevitavelmente estamos, por vezes, atolados em “bens” que nos absorvem e consomem energia, que impedem – consciente ou inconscientemente – a progressão para novas experiências, passíveis de gerar novas memórias e emoções.
Fazer uma limpeza é uma tarefa e responsabilidade que apenas poderá ser assumida e concretizada individualmente, pois é essencialmente um processo emocional. E sobre as emoções cada qual sabe de si. Esta limpeza pressupõe uma análise e uma triagem, mas acima de tudo uma preparação antecipada para lidar com o julgamento dos outros. Parece, por muito que o escamoteemos, haver um juízo moral sobre o desapego, muitas vezes associado ao egoísmo, ao distanciamento e à indiferença.
Para atingir o patamar da necessidade de concretizar esta análise e triagem de “bens”, é nuclear o foco nos benefícios deste processo para a saúde mental e física e, também, para a progressão no processo do autoconhecimento, sem culpabilização e sem remorsos.
Poderá ser, aparentemente, mais fácil destralhar[1], pois a tarefa relaciona-se com bens materiais e/ou simbólicos: a camisola usada aos 6 anos quando se foi a primeira vez para a escola; o papel de embrulho que envolvia a prenda mais marcante até hoje recebida. Aparentemente mais fácil... depende de cada pessoa, pois está intrinsecamente relacionada com o desapego, isto é, com gestão emocional.
No que respeita a desapegar, este processo está, na maior parte das vezes, associado a pessoas e/ou a situações. Naturalmente, um processo mais desafiante pela natureza vivencial, pois a sequência de “perder a afeição” por alguém ou algo evoca permanentemente as memórias e as emoções.
Não existem receitas para miraculosamente se fazer este processo. Talvez a única forma se baseie em autoperguntas:
O que estou a ganhar?
O que estou a perder?
O que posso ganhar se perder?
Mais uma vez, salienta-se que não há prazo marcado para a necessidade e/ou viabilidade de se fazer este processo. Tal como não há timing específico para determinar objectivos e planear a sua prossecução.
Importante é a tomada de consciência de que qualquer processo de progressão necessita de uma antecipada avaliação do que está para trás.
Independentemente dos timings, que 2018 seja um ano auspicioso.
A tod@s que me leram ao longo de 2017, o meu agradecimento.
Até breve,
Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico
[1] Conheci e comecei a usar este fabuloso conceito após ouvir Paula Margarido, arquitecta de profissão e autora do livro Destralhe a Sua Casa (Manuscrito Editora, Fevereiro de 2017).












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