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A viciosa redução da competência às habilitações académicas

  • 19 de jul. de 2017
  • 2 min de leitura

Ao longo da nossa experiência profissional cruzamo-nos com diferentes perspectivas e posturas no que respeita ao entendimento do conceito de competência. Algumas destas perspectivas são extremamente penalizadoras e redutoras do conceito de competência e viciam os processos de autonomia e valorização individual, influenciando, de forma directa, a motivação e o desempenho em posto de trabalho.


A palavra competência é pulverizada nos discursos e práticas, sem que, por vezes, se reflicta o que significa ou o que integra. De acordo com Le Boterf, autor que se debruçou sobre esta matéria, a competência situa-se num cruzamento que integra três eixos fundamentais:

  • A pessoa – que incorpora a sua biografia e os processos de socialização vivenciados em contextos de educação formal, não formal e informal

  • A sua formação educacional – que agrega os contextos de educação formal

  • A sua experiência profissional – que acumula vivências em contextos de formação, predominantemente, não formal, informal (se fosse cumprida a legislação e a responsabilidade social os contextos formais também se agregariam)

A competência é, assim, um conceito agregador que não se resume à pura existência do conhecimento. Exige transformar o conhecimento em concretizações e evidências, num processo dinâmico e adaptativo. A competência revela-se quando se assumem responsabilidades perante situações de trabalho complexas, inéditas, de carácter singular, aplicando o conhecimento com o objectivo de atingir o resultado com eficácia.


Esta introdução tinha apenas um objectivo essencial: enquadrar e fundamentar que é pernicioso reduzir a competência apenas às habilitações académicas. E porquê este objectivo? Ao longo da minha experiência sócio-profissional, em diferenciados contextos, tenho tido alguns debates interessantes – outros, infelizmente, nem por isso pela autocracia das posições – sobre esta matéria.


Há posições extremas que valorizam apenas os colaboradores que têm um curso superior, avaliando-os como competentes e que, nesse caso, ostracizam – é uma palavra dura, mas que deve ser dita – os elementos da equipa que não têm um nível superior. Uma equipa que vivencia esta clivagem é um cenário potenciador de gerar frustração, desmotivação, com ocorrência de egos e protagonismos e quebra, na base, a máxima de que numa equipa a qualidade depende de todos.


Não podemos esquecer que tanto a motivação como a satisfação se trabalham dia a dia e que comportamento gera comportamento. Além do mais, importa adicionar o forte efeito pigmaleão “baixas expectativas geram baixos resultados / altas expectativas geram altos resultados”.


A opção estratégica por contratar diferentes níveis de habilitação deve ser pensada em função de critérios que cada organização, internamente, defina. Cada um gere a sua própria casa.


Uma vez definida a opção estratégica e caso se paute por uma heterogeneidade de níveis académicos, importa manter uma coerência entre os discursos e a prática.


Se a competência fosse apenas adquirida nos bancos de uma Universidade a nossa sociedade teria ficado, num dado momento da história, refém de uma faixa da comunidade e acredito eu que não teríamos capitalizado o saber que chegou até nós hoje.

Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

 
 
 

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